Dr. Alexandre Sousa - Cadiologia

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Álcool e coração: existe algo de errado no consumo?

Autor: Dr. Alexandre Sousa
Data: 14/06/2011

Sempre me perguntam a respeito do consumo de álcool, principalmente as esposas de seus maridos recentemente enfartados. A resposta é simples, porém não facilita muito nossa atitude como médicos, explicaremos a seguir.

O álcool consumido moderadamente causa certa proteção cardiovascular. Este dado foi novamente apontado em estudos publicados recentemente pela British Medical Journal1,2. Duas metanálises de diversos estudos de casos-controle (estudos que comparam pessoas com uma condição – no caso o consumo de álcool – em relação a pessoas sem aquela condição, e segue os pacientes até o evento – no caso infarto ou morte cardiovascular) demonstram que o consumo de ao menos uma dose de bebida alcoólica ao dia diminuiu o risco de: morte cardiovascular, morte por doença coronária (infarto do miocárdio e eventos relacionados) e de derrame. Como um resultado a mortalidade cardiovascular foi 25% menor nos consumidores de álcool em relação aos não consumidores (abstêmios), o que corrobora a grande número de artigos que evidenciaram o mesmo no passado.

Aqui vale um lembrete, não é só o vinho e sim qualquer bebida alcoólica em consumo moderado protege do risco cardiovascular. A confusão se deve a que no início esta relação foi apontada por um estudo entre comunidades européias que mostrou que países com alto consumo de vinho, peixes e castanhas a despeito de muito sedentarismo, obesidade e tabagismo (como era a França), tinham uma taxa de eventos cardiovasculares menor do que populações equivalentes em risco porém sem consumo do vinho, sendo então chamada de paradoxo Francês (artigo que começou a discussão a respeito do álcool em 1979)3. Na sequencia foi descoberto que qualquer forma de álcool tem relação com a redução de eventos cardiovasculares e não apenas o vinho.

O consumo moderado ao qual referimos tem uma definição muito específica em relação a quantidade, tipo de bebida, sexo e raça (tabela). Em homens até duas doses de bebidas alcoólicas por dia seria considerado consumo moderado. Já no caso das mulheres e orientais o consumo moderado é qualificado quando consumo de até uma dose de bebida alcoólica por dia. Isto acontece por motivos genéticos, pois a variação de absorção do álcool varia conforme e concentração gástrica de desidrogenase alcoólica, esta uma enzima crucial para o metabolismo do álcool, e que nestas populações a quantidade da mesma é menor o que acarreta maior concentração de álcool e maiores efeitos danosos do mesmo, inclusive com maior probabilidade nestas populações de embriaguez.
 

Tabela: O que é considerado uma dose de álcool4.

 

Uma dose de álcool equivale a:

Tipo de bebida alcoólica Volume Quantidade de álcool
uma lata de cerveja ou chope 350 ml 5%
uma taça de vinho (qualquer tipo) 150 ml 12%
uma dose de uísque, pinga, vodka, tequila etc. 50 ml 40 -50%

 

Mas está é a resposta fácil, ou seja, o álcool em doses moderadas é benéfico a saúde do coração. E qual a dificuldade na atitude dos médicos que mencionei no início? O fato de existirem pessoas com alta propensão para o etilismo, e que não é passível de verificação por qualquer exame ou entrevista é um fator de alarme para a indicação formal de consumo de álcool. Esta condição, o etilismo, definido como uma Intoxicação crônica pelo álcool etílico que ocorre com o consumo acima das taxas referidas na tabela acima, é capaz de destruir a vida das pessoas bem como a de suas famílias, o que sempre devemos levar em consideração. E é por isto que este consumo deve ser formalmente contra indicado em pessoas com histórico familiar de etilismo (pais ou irmãos).

Ainda existe o problema do consumo em alta dose que pode levar a condução perigosa e risco de morte, é claro que a pessoa que tem consumo aumentado e não dirigir evita este risco. Entretanto o consumo exagerado (várias doses em curto período de tempo) feito em concomitância com uso de medicações para pressão alta, colesterol alto e outros problemas cardiovasculares, pode levar a efeitos deletérios no efeito destas medicações e por conseqüência no risco de eventos maiores.

O risco do consumo de álcool com outros aperitivos que geralmente são ricos em sal, açúcar e gorduras favorecendo assim a obesidade e é formalmente contra indicado em pacientes com doença do músculo cardíaco podendo levar a hospitalização por insuficiência cardíaca congestiva.

A obesidade pelo consumo moderado de álcool deve ser levada em consideração já que o consumo diário destes leva a um aumento considerável no número de calorias diárias, sendo o ganho em calorias: de cerca de 150 calorias por lata de 350 ml, 100 calorias para taça de vinho tinto seco de 150 ml, e 100 calorias para uma dose de uísque de 50 ml, se considerarmos o limite de uma dose / dia, no final de uma semana o ganho médio em calorias podem ultrapassar mil calorias por semana.

Sem contar que o benefício do consumo moderado se desfaz com o aumento da ingestão. Acima deste consumo existe evidência de relação com cirrose hepática, úlceras, câncer de boca e esôfago, e desfaz sua proteção cardiovascular aumentando a pressão arterial, causando infartos e derrames. Ainda o seu uso é proibido em qualquer dose em: mulheres grávidas ou tentando engravidar, pessoas que planejam dirigir ou que estão realizando tarefas que exijam alerta e atenção como a operação de uma máquina e os menores de 18 anos.

Além disso, o que é referido pelas pessoas como seu consumo habitual em relação ao que elas realmente fazem uso, conscientemente ou não, é outro problema já que muitos familiares relatam consumo bem acima do relatado pelos próprios pacientes em consulta, o que nos leva a pensar como médicos e pessoas que este consumo possa ser exagerado em muitos casos, reforçando a importância da opinião dos parceiros.

Pacientes com problemas com triglicerídeos e/ou diabéticos também entram nesta lista de problemas, já que conforme relatado pelo alto número de calorias pode elevar os níveis de glicemia (açúcar) no sangue em diabéticos e o de triglicérides no caso de pessoas sabidamente portadoras de distúrbios no metabolismo desta gordura sanguínea.

Conclusão se você já faz uso de álcool em moderada quantidade fique feliz pois potencialmente existe um fator protetor a mais. No entanto se você tem os fatores acima como falta de controle na quantidade de consumo, diabetes, triglicérides alto e/ou antecedentes de etilismo na família eu nem sequer iniciaria, pois o risco é com certeza maior que o benefício. Podemos recomendar o uso nos pacientes que não gostam ou não fazem uso regular? No meu entender não, caso estes pacientes tenham problemas cardiovasculares outros hábitos saudáveis como dieta DASH em conjunto com atividade física e, é claro o uso de medicações pode levar a um controle adequado do risco.
 

Referências:

1 – Ronksley PE, Brien SE, Turner BJ, et al. Association of alcohol consumption with selected cardiovascular disease outcomes: a systematic review and meta-analysis. BMJ 2011; DOI:10.1136/bmj.d671. Acesse aqui o original (em inglês) (hiperlink para http://www.bmj.com/content/342/bmj.d671)

2 – Brien SE, Ronksley PE, Turner BJ, et al. Effect of alcohol consumption on biological markers associated with risk of coronary heart disease: systematic review and meta-analysis of interventional studies. BMJ 2011; DOI: 10.1136/bmj.d636. Acesse aqui o original (em inglês) (hiperlink para  http://www.bmj.com/content/342/bmj.d636)

3 – A.S.St Leger , A.L Cochrane &  F Moore FACTORS ASSOCIATED WITH CARDIAC MORTALITY IN DEVELOPED COUNTRIES WITH PARTICULAR REFERENCE TO THE CONSUMPTION OF WINE The Lancet, Volume 313, Issue 8124, Pages 1017 – 1020, 12 May 1979. Acesse aqui o resumo (em inglês) (hiperlink para  http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(79)92765-X/abstract)

4 – 1. Department of Health and Human Services and the Department of Agriculture. Dietary Guidelines for Americans, 2005 Acesse aqui em inglês (hiperlink para  http://www.health.gov/dietaryguidelines/dga2005/document/default.htm

5 – Para mais informações a respeito do efeito nocivo do álcool acesse o CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool no site: http://www.cisa.org.br/novo_home.php

 

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